quarta-feira, 3 de julho de 2013

beijos forevis

hoje a gente foi ouvir uma fala que virou uma conversa.

cheguei em casa e pensei que meu tataravô (que é o meu personagem do momento) começa o capítulo três dizendo algo como, lá no século XIX:

"as pessoas estão acordando em um outro mundo. e ninguém sabe que mundo é este. não consigo dominar este estado de ansiedade. faz dias que esperava pelo calor para ir nadar. como ele não veio, fui assim mesmo."

então me lembrei que escrever é falar de mim. não consigo fugir do agora.


(...)

o que foi bonito na conversa das pessoas foi como as pessoas são expostas. quando uma pessoa fala cria-se uma atmosfera ao redor. o corpo tem gestos, é certo, tem uma respiração. a vida e seus instintos e intestinos, a vida se agita na fala. a fala, a cada dia mais, me parece um fluxo de moléculas visíveis e invisíveis, moléculas de vida.

o que mais me interessa numa fala é a atmosfera da pessoa enquanto ela fala, quem é ela? não sei. nem de mim. mas essa atmosfera reúne uma espécie de, não direi pureza nem ingenuidade, é uma atmosfera de fragilidade, direi melhor: é uma atmosfera de delicadeza.


estou dizendo que só viverei naquele 
que se enfraquece de ternura, pena carne.



(...)

tem uma nuance nisso que pode parecer piegas, e talvez seja mesmo, que é a de preferir afirmar a delicadeza e a fragilidade de um corpo contra a violência e a morte.

(...)

uma das palavras que eu mais tenho visto e ouvido das pessoas lúcidas, e que às vezes elas são tão lúcidas que nem percebem o quanto a falam é: "horizontalidade". a escuto e vejo seja de gente pedindo pra que a mídia tenha posições mais abertas, sejam descrições das assembléias que têm acontecido, sejam dos grupos reunidos em fazeres coletivos que eu vejo por aí, "horizontalidade" é uma palavra vivíssima.


sou uma pessoa cartesiana? 
ou praticarei ainda batalha naval?



isso porque logo pensei em eixos e no oposto, a "verticalidade" da hierarquia, do exército, dos ornanogramas empresariais, das árvores genealógicas,... "verticalidade" também me lembrou "vertigem". vertigem. vertigem.


já o horizonte é A imagem do futuro. 
é o inesperado o em aberto o encoberto
aquele que a gente vê e que nunca chega
o horizonte, vendo ao barco
acelera e dispersa, pela frente



(...)

o horizonte? é nosso, meu bem.


sábado, 22 de junho de 2013

sonha-se muito aos sábados

para escrever em prosa preciso dissolver os nós daquilo que me incomoda quando escrevo em prosa. curiosamente, a prosa me parece tão mais artificial do que a poesia. sinto que tem tanto mais pacto entre a imaginação de quem lê do que a poesia.

a poesia não, a poesia tem uma implacabilidade que destrói todos os artíficios.

eu ainda não conheço o ponto na escrita em prosa que eu passo o pano por cima e apago aquilo que me incomoda. também não tenho o treino do ritmo. 

isso tudo porque kornad não pode se afogar logo na primeira página. mas sempre a wikipedia nos informará que há registros de 7.000 anos atrás que já apontam para a existência da natação.

com isso meu tataravô não vai se afogar bem na primeira página do meu novo livro. ainda tem muita gente por nascer. texto então, nó*, nem se fale. 


*esse "nó" foi uma exclamação mineira.

não há fagulha sem incêndio


resolvi reabilitar este blogue, que foi só retirado de cena, embora nunca apagado. de cena da minha escrita.

resolvi reabilitar este blogue em face aos últimos acontecimentos.

sábado, 11 de junho de 2011

anotações lusitanas

três artistas mudaram completamente a visão que eu poderia ter de Portugal se não tivesse vindo, visto. estando aqui digo:

António Variações, João César Monteiro e o Fausto Bordalo Dias do "Por este rio acima".

obrigadinha.

sábado, 7 de maio de 2011

matinal

"-o Deleuze tem algo de perigoso se você não é o Deleuze a dizer, não acha?
-sim.
-o que será? a anarquia?
-não sei.
(...)
-todos os autores têm algo de perigoso se você não é o ele próprio, não é?
-sim. talvez fosse disso justamente que eles se defendiam ao escrever."

terça-feira, 26 de abril de 2011

Linguagem, esta santa obsessão do século XX.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

(eu entendo, antonin meu bem, que você já foi de muita gente, é meu também).

sinceramente
a gente se publica rápido demais
enquanto época mesmo, geração.
isto está produzindo outra relação com a leitura e o apagamento dela. e também com o processo. essa efetividade toda é uma bobagem. artaud dizia que só queria escrever depois que tivesse esgotado o pensar, como se o ventre vazio parisse, algo assim. mas grande dito seja artaud por todas as eras da humanidade, ele tinha um vigor inato para dizer.

hoje eu andava pelo rossio e pensava com três livros dele numa sacola 
C O M O A L G U É M P O D E T E R D I TO I S T O P A R A O M U N D O?
algo tão secreto, tão cheio de sua própria matéria. 

isto se vocês me permitem o relato de uma pessoa que leu artaud na semana passada. pela primeira vez. e descobriu a origem. 

como se eu rondasse há anos uma tradição, digo, era uma casa. a casinfância absoluta.

agora sei que o jeito de me entregar é me defendendo. como aquele lance de que radical é raiz. ou seja: que ele me cavalga, me navega, me revigora isto tudo é já claro explícito isto já vinha de antes. e quero tanto que ele me influencie que sei que isto só pode acontecer se eu resistir à qualquer influência. 

é como um fim de um amor. daqueles namoros que quando acabam na mesma medida que dói dói você se sente livre livre. tinha que ser e nada te quebrará ao meio, afinal você já está no que se rachou, na separação.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


um dos modos de preservar o encontro

encontrar a solução




#




as pessoas na guerra com fome. um grupo de pessoas na guerra com fome. se locomovem todas as manhãs até uma padaria para pegarem a senha do pão. recolhem lenha no caminho. chegam lá




(omiti três detalhes da história que me contaram e quase a perdi: estamos fora da história vendo; convenci-me de que o que sabe um poeta é que, podendo ser águias, definitivamente não somos águias.



essa história conta algo parecido: de homens que quando sentem fome ou qualquer outra situação limite são capazes de chegar ao encontro da animalidade que distingue-nos, enquanto espécie, de outros animais. animais que não somos o limite, digo, a consciência de perceber-se nesta nave-animal (espécie) leva a ser humano. nisso os budistas foram geniais.

o que o poeta sabe é a infinita distinção entre uma coisa e outra, que leva, certamente a precisar distingui-las e saber que elas não valem as mesmas coisas. e que o que valem depende. 
 
águia. por exemplo, que é uma coisa que gosto mto quando encontro em gente. vida vária. uma águia que come os filhotes da outra e uma águia que mergulha num canyon voando são a mesma águia?

há outras coisas a dizer, mas preciso assar um frango. diferente deve ser a carne de águia?

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011


“A escrita muda, num primeiro sentido, é a palavra que as coisas mudas carregam elas mesmas. É a potência de significação inscrita em seus corpos, e que resume o ‘tudo fala’ de Novalis, o poeta mineralogista. Tudo é rastro, vestígio ou fóssil. Toda forma sensível, desde a pedra ou a concha, é falante. Cada uma traz consigo, inscritas em estrias e volutas, as marcas de sua história e os signos de sua destinação. A escrita literária se estabelece, assim, como decifração e reescrita dos signos de história escritos nas coisas. É essa nova ideia de escrita que Balzac resume e exalta no início de A pele de onagro, nas páginas decisivas que descrevem a loja do antiquário, como emblema de uma nova mitologia, de um fantástico feito exclusivamente de acumulação das ruínas do consumo. O grande poeta dos novos tempos não é Byron, o repórter das desordens da alma. É Cuvier, o geólogo, o naturalista, que reconstitui populações animais a partir de ossos, e florestas a partir de impressões fossilizadas. Com ele, define-se uma nova ideia de artista. O artista é aquele que viaja nos labirintos ou nos subsolos do mundo social. Ele recolhe os vestígios e transcreve os hieróglifos pintados na configuração mesma das coisas obscuras ou triviais. Devolve aos detalhes insignificantes da prosa do mundo sua dupla potência poética e significante. Na topografia de um lugar ou na fisionomia de uma fachada, na forma ou no desgaste de uma vestimenta, no caos de uma exposição de mercadorias ou de detritos, ele reconhece os elementos de uma mitologia. E, nas figuras dessa mitologia, ele dá a conhecer a história verdadeira de uma sociedade, de um tempo, de uma coletividade; faz pressentir o destino de um indivíduo ou de um povo. Tudo fala, isso quer dizer também que as hierarquias da ordem representativa foram abolidas. A grande regra freudiana de que não existem “detalhes” desprezíveis, de que, ao contrário, são esses detalhes que nos colocam no caminho da verdade, se inscrevem na continuidade direta da revolução estética. Não existem temas nobres e temas vulgares, muito menos episódios narrativos importantes e episódios descritivos acessórios.” RANCIÈRE, Jacques. O inconsciente estético. p.35-36.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

paris, revisited

Ne laissez pas
votre bras
dépasser
à l’exterieur.

Vous pouvez ouvrir ou fermer les fenêtres
selon votre désir.
En cas de désaccord entre voyageurs,
priorité est donnée à celui
qui souhaite fermer la fenêtre.

ao lado das janelas dos ônibus na capital francesa

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

minhocoçu

Em 28 de outubro de 2010 11:48, júlia hansen escreveu:
- Ocultar texto das mensagens anteriores -
papai,
como que eu escreveria "minhocão" em tupi? o próprio elevado costa e silva.
e anhangabaú quer dizer o quê?
beijos,

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: João Hansen
Data: 28 de outubro de 2010 15:16
Assunto: Re: tupi
Para: júlia hansen

Oi, Juu,
Tudo bem? Que perguntas mais estranhas.
Acho que o aumentativo é minhocuçu , minhocoçu (minhoca+açu). O
elevado Costa e Silva =minhocão,é isso? Por causa da forma
enrolada,torta.
Anhangabaú> anhangá= ente maléfico;espírito mau= diabo. Esse "ba" não
sei se é tupi ou se é a pronúncia portuguesa de alguma coisa como
"anhang'uu", u=escuro, preto, negro; anhangabaú= algo como "diabo
escuro",por aí. Vejo melhor depois e te digo,tá?
Beijos
P


beijos,

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

sábado, 9 de outubro de 2010

ou: ainda só não chegou a hora do fim

acho que nunca foi tão difícil encontrar um final para um texto como desse que tenho que terminar. 

primeiro porque a experiência de escrevê-lo é prazerosa (de como me sinto uma calha, secretária do invisível) e difícil. mas consegui o ritmo dele, por conta de que (imagino) 90% do que escrevo é diário. então simular um diário é uma coisa que já treinei bastante sem simulação. cada vez mais acredito na repetição da calma atenção nas coisas. de que a técnica nasce-vive disso.

agora: o que faz difícil mesmo de terminar o texto que é um túnel é: como sair dele? aliás: o sem-ser que é o personagem dele, como é que ele vai terminar? porque se o túnel é uma metáfora do dentro, do isolamento, como não terminá-lo nem aniquilado pelo encerramento nem com a esperança do mundo de salvação, do  fora? aguardem-me.  também ainda não sei.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

daqui, ao longe o mar

pai!

que bom que você achou tudo isso que disse. acho que vai me ajudar a
continuá-lo e terminar, tanto essa noção desse ser que ser é esse?
também não sei. tem muito de mim, muito de mim na infância, mas tô
tentando descavá-lo da minha pessoa.

minha mãe disse que você disse pra ela uma vez que escrever é andar na
margem da ignorância, né? eu tô sentindo isso muito nesse texto. tenho
alguma idéia de como vai terminar o texto, mas não sei bem por onde.

vou reforçar sim, essa idéia de ser a terra, ser o chão e escavar-se.
mas fica muito espiritual. é um texto espiritual? engraçado, eu não
queria isso, mas acho que virou. de um espiritual irremediavelmente
perdido, também. eu que vou querendo tanto textos que falassem do fora
e do fazer enquanto uso da imaginação. mas a partir que eu e a mayana
resolvemos cavar um túnel não tinha outra saída a não ser fundar. e
por ser um diário, ainda mais. queria pular o paradigma moderno, mas é
engraçado, desde o começo desse texto penso que ele é um texto do
início do século XX, por mais que isso pareça absurdo.

agora que me deu a certeza de que não sou eu quem está naquele ser,
nem poesia é, vou forçar umas barras!

:)

beijo obrigada
beijo

sábado, 2 de outubro de 2010

máximas pra modificar

Uma poeta sabe que as palavras valem tudo, ou nada. Não há um entre. Mas há um eixo: o arbitrário.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

rolando balthazar

" A linguagem é uma legislação, a língua é seu código. Não vemos o poder que reside na língua, porque esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva: (...)

Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer. (...)

Mas a nós, que não somos nem cavaleiros da fé nem super-homens, só resta, por assim dizer, trapacear com a língua, trapacear a língua. Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura."




"A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa. Por outro lado, o saber que ela mobiliza nunca é inteiro nem derradeiro; a literatura não diz que sabe alguma coisa, mas que sabe de alguma coisa; ou melhor; que ela sabe algo das coisas — que sabe muito sobre os homens."



"A segunda força da literatura, é sua força de representação. Desde os tempos antigos até as tentativas da vanguarda, a literatura se afaina na representação de alguma coisa. O quê? Direi brutalmente: o real. O real não é representável, e é porque os homens querem constantemente representá-lo por palavras que há uma história da literatura. Que o real não seja representável — mas somente demonstrável — pode ser dito de vários modos: quer o definamos, com Lacan, como o impossível, o que não pode ser atingido e escapa ao discurso, quer se verifique, em termos topológicos, que não se pode fazer coincidir uma ordem pluridimensional (o real) e uma ordem unidimensional (a linguagem). Ora, é precisamente a essa impossibilidade topológica que a literatura não quer, nunca quer render-se. Que não haja paralelismo entre o real e a linguagem, com isso os homens não se conformam, e é essa recusa, talvez tão velha quanto a própria linguagem, que produz, numa faina incessante, a literatura."

[de Aula.]

domingo, 5 de setembro de 2010

nosso tempo

em dois tomos:

I.

de como sou contra, efetivamente contrária ao reinado das citações. se criassemos mais do que citamos, ou: a importância de fazer da citação parte do próprio corpo da criação. como na digestão, tudo que comemos vira corpo.

a sensação de que o que queremos dizer já foi dito é um vírus do contemporâneo. acho que a citação tende, muitas vezes, por nos distanciar do que queremos nos aproximar. sou contra o respeito que vira imobilidade. às vezes me sinto num velório, e os antepassados polícia, e não fogo de continuidade. das maneiras necessárias, sou a favor.

II.

a intimidade: tempo nosso: quando entramos em casa descobrimos os nossos amigos. se antes sair de casa e voltar era deixar a rua para trás, com a internet, ao voltarmos para casa descobrimos outra rua, e os nossos amigos que por ela passaram, e como nós queremos também passar, de onda, olé, detetives ou informantes. com relação a isso, é tanta gente que se importa na maledicência, que não tenho nenhuma vontade de me indispor.



: : : :


quinta-feira, 26 de agosto de 2010

declaração

respeito "Laços de família" como quem ama um cão. justamente o amor é maior que o cão que o abocanha. amo fraturadamente. quis deixar isso claro, antes que a lua comece a minguar e tudo o que importa definhe. como quem sustém a lua entre as pernas, vou sempre amá-la como a um cão que às vezes fede, e a nossa tolerância (e que bernes! e pulgas, grunhidos) para com o cão aumenta a ternura nas pontas dos dedos, roçando atrás das orelhas. Clarice sabia.



segunda-feira, 14 de junho de 2010

Vertumno

este livro mudou tudo pra mim, um mês atrás. "Vertumno" do Iosif Brodskii, em tradução de Carlos Leite. o livro é dedicado "Em memória de Giovanni Buttafava" e datado Milão, dezembro de 1990. três poemas, entre os vinte e seis (maluco: eu querendo fazer 26 no "poemas do destino do mar", encontro esse livro, com XVI e tão a cara do que eu teria querido fazer se já não visse feito)

I

Encontrei-te pela primeira vez em latitudes que dirias
estranhas. Nunca os teus pés as pisaram. A tua fama, porém, chegara
a essas partes onde se fazem faianças com formas de frutas.
Com neve pelo joelho, dominavas o lugar, muito branco,
e além disso nu, na companhia de outros unipernetas
- as árvores, igualmente nuas- na tua qualidade de especialista
das baixas temperaturas. "Divindade Romana"
proclamava uma placa já delida,
e para mim eras deus, pois que sabias
mais do passado do que eu (o futuro
nesse tempo pouco me importava).
No entanto, de caracóis e cara larga,
podias muito bem ser meu coetâneo. E embora não percebesses
patavina do falar local, pusemo-nos à conversa.
Quem começou fui eu. Com qualquer coisa sobre a Pomona,
os meandros dos nossos rios, os caprichos do tempo, dinheiro,
a falta de legumes frescos, o desconchavo das estações
- coisas, pensava, que deviam ser-te acessíveis,
senão na essência, pelo menos no seu tom
de lamento. Pouco a pouco - o lamento é a língua-mãe
universal; muito provavelmente, no princípio,
era o "ui" ou o "ai" - começaste a reagir:
picaste os olhos, franziste a testa; a parte inferior do rosto
pareceu derreter-se e os teus lábios descerraram-se lentamente:
"Vertumno", disseste enfim. "Chamo-me Vertumno".


II

Era um dia de Inverno, cinzento, ou melhor, sem cor.
Os teus membros, os ombros, o torso, à medida
que passávamos dum assunto a outro,
tornavam-se lentamente rosados e revestiam-se de tecido:
chapéu, camisa, calças, casaco, sobretudo
verde escuro, sapatos Balenciaga.
O calor propagou-se ao ar ambiente e tu detinhas-te por momentos,
à escuta do suave rumorejar do parque,
voltando por vezes no chão uma folha pegajosa
à procura da palavra, da expressão, exactas.
Em todo caso, se não me engano,
quando eu - então excessivamente animado-
perorava sobre história, guerras, más colheitas,
os escândalos do governo, já o lírio se fanava.
E estavas sentado num banco. Visto de longe parecias
um cidadão como os outros, atormentado pelo Estado;
a tua temperatura era trinta e seis vírgula seis.
"Anda", disseste, pegando-me no braço.
"Anda daí. Vou mostrar-te o sítio onde nasci e cresci."


X

Nunca ninguém soube como passavas as noites.
Mas isso não é assim tão estranho, para quem conheça
as tuas origens. Uma vez, depois da meia-noite, no centro do universo,
fui dar contigo na companhia dumas estrelas declinantes
e tu piscaste-me o olho. Pedias-me discrição? Mas o cosmos
é tudo menos discreto. Pelo contrário. No cosmos pode-se ver
tudo à vista desarmada, e as coisas dormem sem lençóis.
A incandescência de qualquer estrela é de tal ordem
que ao arrefecer pode engendrar o alfabeto,
as plantas, a forma do tempo; e a nós, simplesmente,
com o nosso passado, presente, futuro,
e tudo o resto, mas sobretudo o futuro. Nós não passamos
de termómetros, irmãos e irmãs do gelo,
não da Betelgeuse. Tu eras feito de calor,
daí a tua omnipresença. É difícil imaginar-te
num ponto preciso, por mais brilhante que seja.
Daí a tua invisibilidade. Os deuses não deixam mancha
num lençol, sem falar da progenitura,
contentam-se com uma verosimilhança artesanal
num nicho de pedra, ao fundo duma álea do jardim,
demasiados felizes com a minoria que são.

drummond tutz tutz

REMISSÃO

Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, em suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo do teu ser?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

significar

"Segundo penso, é absolutamente impossível conceber o significado sem a ordem. Há uma coisa muito curiosa na semântica, é que a palavra 'significado' é provavelmente, em toda a língua, a palavra cujo significado é mais difícil de encontrar. Que é que significa o termo 'significar'? Parece-me que a única resposta que se pode dar é que 'significar' significa a possibilidade de qualquer tipo de informação ser traduzida numa linguagem diferente. Não me refiro a uma língua diferente, como o francês ou o alemão, mas a diferentes palavras num nível diferente".

Claude Lévi-Strauss


risco que me arrisco

tomo a palavra: escrever. não sou eu quem possuo a palavra, é ela quem me possui. quantas vezes acontece, quantas?, de escrever e não perceber o que é que estou dizendo, escrever como um ato por si acontecido, só realizo quando escrito;

ou colocar um termo, uma estrutura, num contexto que rebela os limites, ou usar uma palavra que não sei bem o que significa e então: se penso que não funciona, que estou definitivamente errada, vou ao dicionário e percebo que cabe, que aquela palavra estava ali pra ser usada ali, tudo encaixado no reino dos significados.

digo: não me parece que a constatação milimétrica do controle sobre a palavra governe um texto, nos leve a ele acabado. há trabalho, é claro, lógico e racional. mas, se há dança, no escuro se dança. e, sobretudo, se dança melhor quanto mais se dança.

não é uma letargia ou inércia com a língua que vai dá-la em conhecimento pra mim, pra você. é antes um trabalho constante, ou melhor, um exercício de atenção, a tudo que parece que não importa, mas que se notar, vais perceber como é fundamental. a inteligência é um uso, um aprendizado, é possível educar o olhar, a escrita, a visão:

leio lévi-strauss, de "pensamento 'primitivo' e mente 'civilizada' " no mito e significado
vejam só que coisa:

"Quando estava a escrever a primeira versão de Mithologiques, deparou-me um problema que, na aparência, era extremamente misterioso. Parece que havia determinada tribo que conseguia ver o planeta Vénus à luz do dia, coisa que para mim era impossível e inacreditável. Pus o problema a astrónomos profissionais; eles disseram-me que efectivamente nós não o conseguimos, mas que, atendendo à quantidade de luz emitida pelo planeta Vénus durante o dia, não é realmente inconcebível que algumas pessoas o possam detectar. Mais tarde consultei velhos tratados sobre navegação pertencentes à nossa própria civilização, e tudo indica que os marinheiros desse tempo eram perfeitamente capazes de ver o planeta à luz do dia. Provavelmente, também nós seríamos capazes de o ver se tivéssemos a vista treinada."

treinar, ensaiar, é para efetuar algo ao ponto de se tornar habitual. pensar leva a pensar. interessar-se pelas exceções nas regras, e, ao encontrá-las, explicá-las, em sentido largo. porque se coube na sintaxe, cabe na sintaxe., cria-se a sintaxe. todos os meios e as ultrapassagens cotidianas escrevem a língua em mim. treino, invento, conheço a linguagem no esquecimento dela, mais ainda porque é a língua que me pensa, não o contrário.

sábado, 15 de maio de 2010

crítica literária

um bom poema (bom mesmo, bombom) também é bom de trás pra frente, do último verso pra cima. se não já era, zero. noves fora, alegria.

descubro memória

no Houaiss

1
faculdade de conservar e lembrar estados de consciência passados e tudo quanto se ache associado aos mesmos

(...)

7 Derivação: por analogia. Regionalismo: Rio Grande do Sul.
qualquer objeto trabalhado com arte que se dá a alguém como agrado; jóia, prenda.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

considerações

acho que não nos governamos e nem somos governados. antes era em intimidade, calor e frio. agora acho que também em sorte, acaso e amor eu acredito. na voracidade do corpo-do-mundo na sua roda infinita de vida-morte e na delicadeza das formas sutis. mas o que eu acho é:

não sei se há destino, mas do que se chama assim, escolho um pedaço por outro pedaço sou escolhida. e disso, de duas liberdades (porque é uma liberdade de escolha e outra liberdade de entrega) é que resulta o destino. se há destino, ele é caótico e múltiplo, são futuros e passados e presentes, nada é estanque e único.

e o destino não poderia estar escrito porque não há uma consciência-maior. por que tantas vezes que a gente pensa em algo maior do que nós pensamos em termos de consciência? quem disse que as coisas têm que pensar e fazer sentido como nós pensamos e procuramos sentidos pra acontecerem como acontecem?

domingo, 9 de maio de 2010

"Lembremos que, para cada um desses indivíduos, tanto para o australiano como para o chinês, o hindu e o camponês europeu, os mitos são verdadeiros porque são sagrados, porque falam de Seres e de acontecimentos sagrados. Conseqüentemente, narrando ou ouvindo um mito, retomamos o contato com o sagrado e com a realidade, e dessa maneira ultrapassamos a condição profana, a "situação histórica". Em outros termos, ultrapassamos a condição temporal e a obtusa suficiência, que são o fardo de todo ser humano, pelo simples fato de ele ser "ignorante", ou seja, de identificar a si e ao Real com a sua própria condição particular. Pois a ignorância está em primeiro lugar nesta falsa identificação do Real com o que cada um de nós parece ser ou parece possuir. Um político acredita que a única e verdadeira realidade é o poder político, um milionário está convencido de que apenas a riqueza é real, um erudito pensa e mesma coisa de suas pesquisas, de seus livros, de seus laboratórios, e assim por diante. "

Mircea Eliade, em "Simbolismos indianos do tempo e da eternidade" in: Imagens e símbolos.

sábado, 8 de maio de 2010

este livro é um oráculo/ você toca nele

no cantos de estima escrevi uma nota de prelúdio, introdução: "este livro é um oráculo/ você toca nele". finalmente me perguntaram o que quis dizer com isso.

respondo.

#

no pouco que entendi do Rancière (a partilha do sensível) há uma frase que me tomou a concentração: em que ele diz que há um movimento de democratização quando o Flaubert (um grande exemplo) parte para a construção de figurações e não de ensinamentos.

por algum caminho isso me parece próximo da morte (filosófica) do deus cristão. se não há um sentido maior, absoluto e controlador da experiência, é a própria experiência que interessa. e não um como instruir a experiência por meio de um sentido, prévio e regulador.

pelo que estou entendendo a busca pelo sentido não cessou. a psicanálise, por exemplo, trouxe o indivíduo para o centro da sua própria narrativa mitológica. o que é a obrigatoriedade do consumo se não um grande indivíduo-deus capaz de possuir e criar (por meio do dinheiro) o mundo que quiser ter? e falta de dinheiro um "por que me abandonastes",

e mesmo a heroicização individual perceptível em qualquer revista de comportamento. "tudo é possível, se eu quero, se eu ajo" é o que parecem dizer. nessa hora penso em

Navegar é preciso,
viver, não é preciso

isso se a minha leitura destes versos famosos for pelo caminho de que eles não têm haver com uma negação da vida, mas com o conhecimento técnico. ou seja, o verbo "precisar" teria aí mais haver com exatidão do que com necessidade.

#

se penso um pouco mais acho que deus morreu para quem?

pros ateus, é certo que formaram uma outra religião.

pensemos na força da Igreja Universal do Reino de Deus no Brasil, em Portugal facultando os serviços por conta da visita do Papa, e os muçulmanos, e os budistas, e tantas outras... magias, profecias, conhecimentos.

e a morte de deus parece ser um pensamento civilizatório, historicizado e que pertence a pouca gente.

#

se um oráculo te traz uma imagem que você já tinha mas que não se via revelada, eu acho que a poesia tem desse rio. isso em primeiro lugar. em segundo lugar eu acho que a gente (nosso tempo) vive uma teia cotidiana que não sei explicar bem. acho que ainda não tenho experiência pra dizer isso, mas você sabe do que estou falando.

é o que os antropólogos, sociólogos, ólogos da vida chamam de ausência de ritual, ou "morte de deus" ou "falta de sentido". e então eu acho que a arte entrou muito por aí, nessas fendas. há gradações e registros, é claro. mas na minha experiência principalmente a música ensina como sentir, carregada, levada, por ela. ouço um refrão e ele explica-me o que sinto, com ele, aumento o que sei. por mim, sou da música. e então David Byrne e Brian Eno

your song still need a chorus

e é só pensar nas quinquilharias e quadrilhões de livros de auto-ajuda, né? paulo coelho = suplemento de alma. então eu quis brincar com isso

"este livro é um oráculo/ você toca nele" que também é uma forma de dizer que ninguém ultrapassa a si mesmo e esse limite é ilimitado. que sempre vai se encontrar no presente livro um oráculo do seu presente, através do qual vão se constituir e radicar, tanto o futuro, como o passado.

o futuro passado no presente

os primeiros versos do Four Quartets do T.S. Eliot

Time present and time past
Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past.
(...)
Time past and time future
What might have been and what has been
Point to one end, wich is always present.

é algo parecido com essa a atenção que o budismo faz do tempo, acho. de que o presente é o ponto de convergência de virtualidades do passado e do futuro. o presente teria que ser assim um estar-se?

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acontece que nascemos e morremos e muita coisa acontece entre um acontecimento e o outro. há uma maneira crítica que se propõe a pensar a morte como uma necessidade de consciência, pensamento e confronto. porque não devemos nos alienar da morte. ela sempre se lembrará de nós. a morte é a pior das lembranças necessárias. se essa lembrança faz viver, melhor.

a maria zambrano escreve que não sabe porque não se tenta pensar o nascimento com o mesmo grau de mistério e confronto. o nascimento irradia uma energia implacável, não um cessamento, mas nem por isso é mais confortável.

se pensarmos no corpo-mundo, a morte não é um cessar, a morte também explode. se no singular uma imobilidade estúpida para um corpo tão lindo, tão vivo, num ponto de vista mais alargado a morte mostra o caráter oceano: de que cada ser vivo é uma gotícula orbitando-se num organismo planeta,. a morte vem torná-lo o que já é: carne do mundo, putrefação, adubo, cinzas.

mas somos seres históricos, sentimos saudades e gostamos uns dos outros.
e eu, pelo menos, dor e liberdade nos esquecimentos.

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lembro de um amigo contando que quando seu filho nasceu, a primeira coisa que o menino fez não foi chorar, mas sorrir.

e nos luminosos feixes de todas as coisas e tempos, mergulhar nas transparências sem fantasmas.


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penso que o passado tem as mesmas instâncias de desejo, medo e ilusão que qualquer vista de olhos tentando ater-se ao futuro. muito da literatura do século XX colocou-se a dizer isso. Proust, nosso campeão.

no primeiro poema do meu novo encantamento, Vertumno, o Iosif Brodskii escreve:

Encontrei-te pela primeira vez em latitudes que dirias
estranhas (...)
e para mim eras deus, pois que sabias
mais do passado do que eu (o futuro
nesse tempo pouco me importava).

é curioso, porque até dois anos atrás eu só me interessava pelo passado. e depois passei somente a me interessar pelo futuro. eu só escrevo sobre o que me interessa radicalmente. e agora, José?

agora me interesso por este pensamento. porque chove, talvez.

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não sei de onde vim, muito bem, não. para onde irei também desconfio, mal.
mas se me debruço com atenção no que já escrevi percebo que eu sempre sabia um pedaço de pra onde iria.

no momento, eu me interesso mais pelo futuro, porque ele me parece mais em branco e instável do que o passado. comovente passado, estou ficando velha?

o Bernardo disse uma vez sobre a maldade, e acho que se aplica ao conhecimento do futuro. "e se for como um cheiro?, um cheiro que sentimos mas não temos consciência disso".

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o oráculo diz a Édipo o que realmente vai lhe acontecer e acontece, só que acontece de outro modo. é Édipo que conhece o seu destino como sendo o de outro, até ser o dele. o oráculo diz uma coisa que parece desconhecida.

como um filme que assistimos.

daí entro em pensar no "estar escrito", aquele famoso ditado "deus escreve certo por linhas tortas". me pergunto se essa noção de escrito aparece em quais culturas? é uma tradição hebraico-cristã?

há destino? uma dúvida é só um maior espaçamento entre as coisas.

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uma multiplicidade de futuros, sim.

ou a situação do dizer a vida: é perder absolutamente, criar, descobrir ou mudar.

e os oráculos que funcionam? O I ching, linear e rizomático, se pergunto me concede instantâneos como uma fotografia polaroid. oráculos mexem com o subterrâneo etéreo áereo que nós somos. sempre sabemos e desconhecemos tudo, ao mesmo tempo. a grande-sopa inconsciente em que nadamos. quer dizer: está em nós mesmos aquilo que imaginamos. um oráculo é um espelho, um pouco opaco, que liberta uma imagem que já estava solta. de tão solta, não se via. um oráculo traz a imagem que você já tem. entende?

e é pouco, comparado ao que virá. na relação entre conhecimento e desconhecimento, estou presente de dúvidas.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

I now, it's over

tenho algum medo de voltar a europa, sabes, xxxx, medo de me tornar as coisas de pedra. essa cidade aqui é puro delírio e fuligem, mas no entanto o mato cresce como se gritasse, ainda mais esse ano que choveu tanto (viu os mortos no rio de janeiro?, é, um horror). mas as árvores se comoveram, estão estufadas. e o mato cresceu dois metros, nas beiras das estradas. talvez se arrumassem vacas elas cortassem melhor o pasto do que a prefeitura de são paulo.

desculpe-me que às vezes te escrevo tão literariamente como se ainda se trocassem cartas e não esses imediatos de emails. julgo às vezes ser desnecessariamente intensa ou só mesmo excessiva sabendo que você não tem tempo, que ninguém nesse mundo tem tempo e que eu só tenho tempo porque sou uma espécie de parasita do tempo livre.

creio que acabou também em mim o tempo de ceifar o silêncio. é impressionante como a vida muda e às vezes só uns choques (transatlânticos) nos fazem perceber. só em sp percebi que vivo em lx. só em lx perceberei que vim até sp.

ou, melhor: o texto: pensa comigo: o freud inventou o inconsciente e um século inteiro ficou fraturado dele. mostrando isso que acontece entre o que é visível e o que vê, que é o que é pensamento, memória. a literatura tratou disso e não só. sei falar de narrrativas. por exemplo, aquele filme lindo que você gosta, o "morangos silvestres", o encontro com as frutinhas que desenlaçam a lembrança do que ele foi, do que ele se tornou UM MURO para o qual já não há mais tempo. ele encontra alguma ternura. ou o proust, a madeleine no chá de tília, e nove romances de travessia. eu quero escrever como uma flor no momento que eclode, do casulo à borboleta, a memória como um ovo estatelado. o que quer dizer: sou escritora e: não estou mais fascinada pela memória. ela é uma faculdade como a respiração. e a vida?


também quero encontrar a nudez. porque no !cantos de estima" estive atrás da infância como um procedimento. uma infância como diversão perante ao delírio do mundo. por isso a ordem dos planetas. mas agora acho que cresci. a criança já vive em mim. a criança que fui, que serei, que terei. feito um abacate. acho que fica bonito na minha idade a idéia da nudez. de um corpo feminino mesmo. ou a nudez da palavra. da palavra como um corpo feminino, fértil. brotar, apresentar a palavra como um ovo frito estatelado.

estou aberta para o esquecimento
 

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