sábado, 30 de janeiro de 2010

amor

um dos problemas do amor, de viver o amor, é o tempo histórico. o amar de um jeito, de uma época, de uma cultura. é a naturalização que atrai o cárcere, a impossibilidade. o poeta tem que desmistificar tudo isso.

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o tempo nos diz, dizemos contra ele. porque o tempo: é morte. e vida nisso mesmo.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

cavalo!



há algo muito perto.
e esse medo é fraqueza do corpo.
vou recebê-lo.

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hoje estou completamente angustiada com a experiência do corpo.

deve ser porque a mais capaz de atuar é aquele sem identidade que vim pra Portugal, outra no apagamento. essas palavras "Brasil", "saudades", sinto e sei tudo isso. desconheço.

ouço no metrô alguém dizer "coisa fixa e definitiva". uma risada ao largo. não sei onde que li que a atenção é estar num lugar e perceber todos os sons sem deixar se envolver por eles.

na sala da boa aula ouço "a linguagem domina o poeta". não sei onde eu estava. cavalo!


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a loucura é o que não conheço.
apenas sei de uma tensão
limitrofe da imaginação
tomar conta de todas as vontades e falas.

talvez a tensão angustiosa que na paixão sempre foi aquilo de que eu queria me livrar/ talvez
tenha sido sempre a resistência à destruição absoluta.

talvez me faltasse pouco.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

by this river

há textos que nos modificam porque nos afastam de nós, em novas possibilidades. tem outros que parecem ter sugado o próprio jeito de pensar meu e, plasmados em palavras de outros, leio os meus conceitos que até então desconhecia. reconheço-os como a mão de um amado à primeira-vista. todo amor move.

o que me intriga, agora: como é lidar, encontrar com meu pensamento cem anos atrás?

*

é só o frio, júlia. não precisa fechar o estômago.

*

é preciso tanto tomar tanto cuidado com a Europa como apropriar-se dela. a apropriação pode ser pelo método europeu, por exemplo, de se vestir na compreensão do inverno. o cuidado, não, o cuidado deve ser tremendamente tropicalista.

*

a menstruação é uma destruição, mesmo. a matéria não usada se coagula e expele. deve ser por isso que dói. a pele melhora. é empírico. mulher é um ritmo.

*

não entendi o marcos
disse que eu faço o conceito ser performático e eu não entendi.

entendi agora. que reproduzi. ele deve ter razão porque eu só entendo as coisas quando reproduzo. é por isso que anoto freneticamente tudo o que os professores falam (também para não ter que olhá-los, o que além de constrangedor, muitas vezes causa tédio). é por isso que ao ler em inglês, traduzo. é por isso que escrevo sobre a minha vida. é por isso que faço sexo.

*

escrever, definitivamente, não é uma coisa e nem outra.

*

descobri que sou uma fita magnética e funciono ainda no tempo de quem se amavam e se davam k7. então você vem, aperta o play, and IT LOUD.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

liberdade e reiteração

um poeta quer perder a palavra. a palavra de plástico, toma o sopro que for: esse: o ritmo. não quero repor o sentido do que já existiu. quero o sentido se fazendo enquanto se faz. deve ser por isso que tantas vezes me dizem: prolixa. é porque eu nunca encontrei o que dizer.

diferentemente de um técnico ou de alguns filósofos, pros quais a terminologia exata é o que verifica a viabilidade e continuidade, e também confere a autoridade, um poeta se dá dentro de conhecer a própria língua, mas para burlá-la, ou inventá-la, como escreve o Roland Barthes n'O grau zero da escrita e em certo sentido também o Herberto Helder no primeiro conto d'Os passos em volta, é a invenção de um estilo, o que garante a sobrevivência.

(falando em originalidade conheça o Santiago, no filme do João Moreira Salles)

e no estilo, o poeta então, justamente que quer o termo não-exaurido, se encontra um obsessivo em repetição. somamos dentro dos poemas um mesmo grupo de palavras, sentidos, noções. então também o poeta se firma pela recorrência. acredito que os mais exploradores, poetas de luz-na-cabeça, descobrem suas repetições e exacerbam. ao Drummond, por exemplo, noite, mundo, que tanto se repetem, ou o ser que se dissolve em nascer. o Alberto Caeiro que se usava de 600 palavras, se muito. ou em alguns casos, parece uma semântica biográfica, como a substantivação recorrente da morte prum Paul Celan, de campos de concentração vivido.

então o que é um estilo além d'um nascimento da exaustão?

quarta-feira, 20 de maio de 2009

12 exemplares

agora há uma morada pro projeto 12 exemplares

ainda não tem muita coisa lá, mas felizes adentraremos na noite

terça-feira, 19 de maio de 2009

informe ligeiro, maio 19

ontem no almoço recebi as 14 músicas do Flavio, o exemplar 09a.
o 01 veio de Budapeste, duas semanas atrás, através da mãe da Ilana.
o do gUi (06) fui buscar na Vila Mariana ainda em abril, e agora pode-se ver nesse link.
já estavam comigo também o 02, da Cristina e o 08, da Andrea.
com isso, somos cinco. amanhã tenho promessa de mais dois. será?

terça-feira, 5 de maio de 2009

pra beber eu quero

Machado de Assis e a primeira menção à "ressaca" em Dom Casmurro, sem a crítica e nem conhecendo o final, por favor:


"Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra de dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misteroso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me e puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, -para dizer alguma cousa - que era capaz de os pentear, se quisesse;
-Você?
-Eu mesmo.
-Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.
- Se embaraçar, você desembaraça depois.
-Vamos ver."


ah, o amor.

-

essa é pros cheios de sentido de plantão: afinal, conhecer o final muda o que veio antes?

segunda-feira, 27 de abril de 2009

perfeição

substantivo feminino
1 o mais alto nível numa escala de valores
Ex.: a p. de Deus
2 excelência no mais alto grau
Ex.: o concerto se notabilizou pela p. da regência
3 grau máximo de bondade ou de virtude
Ex.: era uma p. de caráter
4 cuidado extremo em uma tarefa, um trabalho etc.; apuro
Ex.: a decoração da sala era uma p.
5 pessoa ou coisa perfeita
Ex.: Ex.: ela era uma p. / a nova sinfonia é uma p.
6 Rubrica: música.
na rítmica medieval, a divisão de uma figura em três partes (tempo)
7 Rubrica: teologia.
estado ou condição de quem está livre de pecados

sinônimos/ variantes
apuro, arte, bondade, capricho, correção, esmero, exatidão, impecabilidade, justeza, limpeza, magistralidade, plenitude, pontualidade, preceito, precisão, primor, quilate, rigor; ver tb. sinonímia de beleza e antonímia de erro

antônimos
defeito, imperfeição, mas; ver tb. antonímia de beleza e sinonímia de erro e imperfeição

etimologia
lat. perfectio, onis 'perfeição, complemento, remate' de perfectus part.pas. de perficìo,is,féci,féctum,ficère 'fazer inteiramente, acabar, terminar, perfazer; fabricar (com arte), aperfeiçoar'; ver faz-; f.hist. sXIV perffeyçõ, sXV perfecçõ, sXV perfeicam, sXV perfeyção, sXV perfeiçoõens

terça-feira, 21 de abril de 2009

eleições categóricas

* clarice lispector inventava ou sentia?

* ana cristina césar emulava que não sentia?

- eu acho que foi a crueldade
um cinismo de macho-
cartesiano
que matou ana cristina -

* no dia de Tiradentes: é tanta a corrupção nacional, que eu, cidadã que voto como todos nesse país: "mal": só posso pensar que nunca nos desabituamos ao sistema monárquico.

* tem algumas frases que eu escrevo e eu sei que elas não são escritas.

domingo, 12 de abril de 2009

informe, abril 12

a quem interessar possa, o projeto 12 exemplares continua em andamento,
com os prazos de recebimento das respostas um tanto mais alargados até o fim de abril,

até o dia de hoje
a única resposta completa que já recebi, na quarta-feira passada, foi a da andrea aly, do exemplar de número 8, e posso adiantar que é um trabalho de ilustração,

sobre as outras já sei, ouvi, ou vi um tanto, sei que estão a caminho, ou nada.

logo quando todas chegarem, colocarei aqui quais são os poemas,
já as respostas terão outros meios de se mostrarem primeiro,

cheers!

quinta-feira, 26 de março de 2009

o que eu estava escrevendo sobre o herberto helder

encontrei, sobre a mesa, batido à máquina, domingo frenético:

a poesia para h. helder é um fazer
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tenho interesse no texto e no pensamento enquanto espaços elásticos. se uma dúvida é um maior espaçamento entre as coisas: o que se dirá de um conjunto de dúvidas? um enorme espaço, salão de festas e fracassos, onde um eu chora e dança.

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enquanto atitude poética é, sobretudo, correr o risco de não aceitar o tédio. o tédio lugar comum do bom-mocismo contemporâneo.

- -
talvez eu escreva justamente a impossibilidade de escrever. como matar os pais dessa frase (o meu, beckett, drummond, villa-matas, etc)? e se consolidá-los como um lugar de gratidão for justamente mais delicado com o mundo que tentamos inventar?

não sei o que vêem os seus olhos. e em certo sentido já agradeci uma vez por me abandonares e com isso me estufar de saudades e dor. porque, dizem, depois da invenção da anestesia anda-se por aí à mão o estojinho de couro e zíper com ampolas.

e um poeta a dizer: queimem-me, se isso nos for um conforto para nós e, sobretudo, trouxer abrangência e expansão.


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não vou falar do que não me importa.
é terrível ter de apresentar credenciais.
um texto não é um edíficio de banco.

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voltando, todo escritor escreve a impossibilidade de escrever e só quem escreve pode isso entender. mas do momento em que se escreve em diante, a impossibilidade morre porque dela nasce uma materialidade em fluxo: o texto.

por isso os hiatos melódicos, alguns textos serem o negativo do texto. ou todos? bem não entendo o que quero dizer com "negativo do texto" mas talvez você entenda, por que não?

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eu vou
por que não?

caetano veloso

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escrever é um gesto de caça.
é um ofício de revelação.
que o teu stand de fotografia seja o meu poema,


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ao que concluo que herberto helder sou eu,
um piparote e adeus,

sábado, 14 de março de 2009

poética

deixa o texto encontrar-se com o próprio texto
porque os textos se entendem mas quem os escreve não

sábado, 7 de março de 2009

CIDADE

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.



Sophia de Mello Breyner Andresen

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quinta-feira, 5 de março de 2009

pequenas semânticas de um destino

Hoje me telefonaram chamando pelo primeiro nome de uma “desentupidora” se eu queria fazer um “procedimento” “preventivo”. Porque é claro que quem se previne com um seguro médico hora ou outra vai precisar de um encanador. Eu fico pensando: é mesmo. é mesmo. é mesmo & desligo um riso de fundo, não acuso pela intromissão nesse dia de nada e digo “olha, moça, não estou interessada” não sem alguma culpa no coração pela mocinha que telefona a cada 60 dias pra me perguntar isso. Sim, já é a terceira vez que a desentupidora “júpiter”, me telefona. ou é “saturno”? Da próxima vez vou anotar.

Então, observando meu misticismo metafórico por metro quadrado de materialidade pragmática que me levapor meio de um insight atrás do outro produzir um trilho e nesse trilho compor uma canção que por favor o definitivo por favor não me faça mudar amanhã mais uma vez ó por favor dá-me só o corpo me dá mais um copo de corpo chego a conclusão de que eu não gosto disso. Antes fosse uma distribuidora, mas desentupidora é uma imagem assim, Bukowski+ Dostoievski e eu sou mais pra outros, mas muito mais pra outros ralos. Imagine então se me ligasse a distribuidora de água fresca nesse calor inédito de março?

(The foot, the ground, the flesh and the bone
passarinho na mão pedra de atiradeira)

Não gosto de sinais esdrúxulos. Estou para: sirene de silêncio, trovões, casas que alagam, pasmaceiras que rebentam as porteiras.

Ttudo isso pra contar um sonho,

Sempre tenho um sonho que às vezes me assalta (as imagens têm me assaltado nessa última semana meu corpo atônito de estar tantas vezes no Porto ou Budapeste ou Verona ou tantas vezes na casa da Guacira minha prima de Santa Bárbara d’Oeste ou transitar por lugares mesmo lugares que eu nunca me lembraria de estar nada mais de escolas de repente o Carrefour da Raposo Tavares - - Eu vi. Não devia contar isso assim? Mas o que fazer eu só vi uma vontade minha acho. Vou escondê-la? Guardar nos meus bolsos para mais tarde? Gordurosa e impregnada a imagem é ela que me vive. Passá-la no pão feito manteiga até derreter? ) com a minha casa (essa ou outra completamente imaginada) e que há um lugar da casa num andar de cima que eu não estou aproveitando.

Depende da vez esse lugar é diferente. É um quarto muito aberto, quase um solarium, uma varanda, nem bem sei. Há uma porta de vidro que nem limpa nem suja deixa ver lá fora com lúcidas manchas de pó e tem os ferros pintados de branco. Outra vez era o último andar de uma cobertura enorme com vista pra uma cidade enorme. Já sonhei que era a saída pra rua de um sítio. Já sonhei que era um galpão enorme e revestido de madeira com um grande pano de lycra caindo do teto. Um espaçozão de dar festa, mas vazio. Em todas as vezes, o que acontece, é que é um lugar a que eu chego de surpresa que me fascina ou que é um motivo de angustia por ser a ele relapsa. É sem dúvida, sempre um espaço que não estou acompanhando. É também um lugar de saída e respiração. E é também um lugar que me pergunto se a porta está bem fechada porque algum ladrão/homem pode entrar e me pegar desprevenida.

Eu acho que eu estou sonhado o inconsciente.

Se eu continuasse me atormentaria pensando que esse sonho me mostra que estou me escondendo algo. Acho que fui pensando isso por ele durante esses últimos meses. De repente, sei lá, o calor, março, caquis, goiabas, a cor azul, o pano vermelho de cortina estraçalhando a janela pra fora do vizinho. Então, sabe, essa merda de psicanálise usada assim pra registrar-nos com uma liga metálica em estrutura de espiral de DNA cultural, meodeos. Então, no vai-e-vem dos teus quadris: O espaço a que não tenho acesso sempre sonhado justamente me mostra que estou sempre achando que estou me escondendo algo que deve ser revelado. E que haverá sempre um espaço pra fora do espaço.

- -
na viagem que fiz ano passado de três meses durante dois deles eu sonhei todas as noites e com pessoas e coisas que não eram eu e nem eu conhecia, e elas viviam as histórias delas dentro dos meus espaços,

a isso: leveza.

- -

bem, se eu não vivesse isso de pescagem, colheita, esta espécie de revelação de imagem, desde muito pequena, não escreveria.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

pondo-me em contato

(...)

Porque somos uma constelação, realmente. E quanto mais livre vou ficando, mais o universo em expansão se desatrai, quantas dúvidas são só justamente isso? uma maior frouxidão entre os limites?, mais sem limites fico constelada por dentro as órbitas enormes enormes o tempo tão outro tempo e mais firme e afogada quando a maré volta, então o que eu queria é a margem de terra que fica ali, presente, que se completam, como a água completa o ar a terra completa os dois e o fogo converge outra coisa em contato com tudo. E então? Mas a areia molhada, é água ou terra? E a poeira no ar? E as partículas de oxigênio entrando do céu para dentro do mar? São de penetrações assim que eu tenho falado. Sim, o mundo nos une. Não me interessa rejeitar, prefiro conceber.

(eu não consigo escrever e isso é terrível. se o Lobo Antunes diz que ficar sem escrever é penoso o mundo acha lindo. a Clarice todo mundo reitera de como desde criancinha era uma atividade inescapável desde o princípio. e eu, que existo, nasci de uma mala e nunca tive pai para amar com respeito, vou sendo vista como uma pomba trôpega?)

(...)

E então, volto ao livro que ganhei de presente. Não consigo ler nada (embora o tom desse escrito seja a CL que leio dois parágrafos por dia hoje me levantei às 7h abri o livro sobre a cama li dois parágrafos e dormi e sonhei que nós dois éramos dois pequenos grãos de arroz cru em cima de um tecido e quando acordei esses grãos estavam pela parte de dentro do meu esterno. No mesmo lugar quando no Rio de Janeiro sonhei com uma música dos xxxxxx e quando acordei havia um diamante entre o meu peito e o travesseiro e da janela de Santa Teresa a Central do Brasil marcava cinco horas e um tantinho a cidade ainda quase escura mas já deveria ter gente pra lá e pra cá eu vi um jatinho passando uma estrela e a dinamarquesa dormindo só de calcinha e lembrei com a nuca empapada de que de tarde ela me veio com um documento de passaporte mostrando que ela tinha o mesmo sobrenome que eu, justamente brasileira), então, como já disse, desde que terminei xx xxxxx tudo me enfastia, mas leio a todo tempo de um modo estranho. Como escrevo de um modo alheio. Tenho um amigo de muito tempo que me diz sempre que o melhor modo de se aproximar de um livro é lendo-o as páginas ao acaso. Trechos. Interrupções. A experiência macro do micro. São esses meninos dispersos de olhos com jardins. Sou um deles. Então, então, abro-o ao acaso. E faz dois meses que o livro me circunda. É um laço de corpo mesmo, a direita e a esquerda que há de me abraçar. E não brota do livro o corpo dele, é uma coisa assustadora. Posso olhar e fazer o maior esforço que seja, esforço que poderia fazer chover sobre o livro, mas de dentro dele não saem as pulsações de braços e respirações daquele do livro. E de tanto ver os papéis-cartões, não sei mais vê-los, embora às vezes me assustem ao tombar a letra esplêndida. Me retiro deles, abro o livro ao acaso, leio oito frases e fico embasbacada. E eu sempre fui assim com esse escritor. Foi o primeiro escritor de uma língua que me indicou que a minha língua era diferente. Quem? Bem, é um segredo, diria ele e o escritor, sem se preocupar nenhum um pouco com você, ou por se preocupar tanto quê - - - . Então eu fecho rapidamente o revelador de segredos. Volto a olhar o coração embasbacado. Penso será que ele me disse isso mesmo? Abro novamente. Fecho. Disse. Nunca sei o que ele disse. Então copio trechos para ver se os fixo na transformação de entendê-los. A máquina de escrever a máquina de computador a máquina de caneta. Se não as tivesse, escreveria com que necessidade? C.L. que me perdoe, mas isso sim que é texto-lava.

De todo modo, estamos em março.

De todo modo, o grau de autoconsciência só aumenta e se um dia eu me atirar contra uma parede com a cabeça que ela esteja acolchoada.

Adeus.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

carta aberta - 12 exemplares

trechos de um email para cada um dos 12 no dia 24.1.9:

"Não são todos vocês que sabem, mas a Ilana, o Marcos Visnadi, a Clarisse e o Alfredo só receberam o Cantos de Estima nessas últimas duas semanas. Fui um atraso que só, me desculpem. Com isso a data final para o recebimento de todos os trabalhos/estimas/críticas será uma segunda-feira, dia 6 de abril, dia que, segundo a wikipedia, inventaram o lápis na Inglaterra. 6 de abril está bom pra todo mundo? E, adendo pra quem está do lado daí do Atlântico, sim, o redor a essa data é quando espero receber materialmente em mãos. O correio me encanta. E tanto também os olhos-nos-olhos de quem prefirir me entregar em presença.

Aproveito também para contar os caminhos que vão tomando o projeto. Continuo em sua idéia nuclear, de que se tratam de relações em níveis íntimos, na enorme miudez de alguém que resolve desenhar em cima do livro que ganhou de presente, ou que rascunha uma nota nas fichas pessoais, ou que tira uma foto que se lembra daquilo, ou que anda por aí a ser fantasmado por um verso. Mas, como diz o Drummond "me exponho cruamente nas livrarias/ preciso de todos" e eu pra fazer preciso existir e para existir preciso mostrar. E como diz a Ana Cristina Cesar " não sou mais severa e ríspida/ agora sou profissional".

Alguns de vocês já sabem, mas nem todos. Os planos são: montar uma mostra 12 exemplares itinerante e, depois, ao término da itinerância, fazer um livro (e/ou um site) em que se mostre tudo que foi feito, e no qual pretendo escrever sobre os processos e ligações entre,... nem sei!, isso é pra mais tarde.

[...]

Agora, imagino que muitos vão trabalhar com imagens, filmes, sons, outros com textos e outros com-nem-sei. Haverá forma de mostrar a tudo. Tudo. Por favor, reitero, façam com a liberdade de cada um. Agora, em primeiro lugar, lembrem-se, tenham em mente que é ao meu corpo que se devolvem os exemplares, não a nenhuma exposição, mostra pública, livro, outdoor ou qualquer coisa do tipo. E, ah!, crise todo mundo tem. Todo bom projeto, inclui em seu risco, muito fracasso. Façam, me entreguem, deixem que eu me viro com o que vocês me devolverem.

[...]

Por agora, penso que é isso. Que venham as respostas,

[...]

ps, Curioso é que temos um anexo, o Flavio, grande músico, que não foi explicitamente convidado pra todo esse 12 exemplares, um dia veio aqui e pegou um dos livros-piloto que fiz, que não ia ser pra ninguém, e levou pra casa. Com isso, ele já compôs duas músicas, uma com "eu sou o rio dos mortos" e outra com o "desta amurada". Pra segunda, cabe informar, que ele fez um samba. Ao que eu fiquei numa felicidade. Vamos colocar esse acaso no meio, sim, sem mudar o nome do projeto, nem o número de exemplares, contando que música se propaga pelo ar e logo que eu tiver dele os mp3 como ele me prometeu, envio pra quem for de enviar,"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

fazenda

mas se a palavra "esperança" não tem o que ela diz posso escrever "rancor" que tanto faz.? se incendiar o papel depois, tanto fez. mas a permanência de uma palavra deslocada de seu lugar pode ecoar ecoar ecoar ou, pelo contrário e muito pior, abafar. no sentido do excesso que exacerba ou cansa.

escrever "palavra" que diga "palavra".

por desregramento dos sentidos entende-se um entranhar-se? ficar viciada em sensações em que a grande maioria é principiante. porque tudo é. sou, em realidade, o grande estômago de todos nós. está vendo? a poesia me curou até da megalomania. um emplasto sem rótulo, taí, não tem onde caiba, eu te amo.

uma música porque todas me convém. de ritmo mesmo, quanta falta, estou entendendo. acontece. nada é mistério. o mais simples é mesmo o mais difícil. "basta estar vivo". ninguém consegue. poesia que acende abajour sem bajular ninguém.

me devolve na rede e balança. xeque-mate: o poema é o meu túmulo? que ninguém me exume. agora me deixe: acordar é sonhar, dormir é descrer. ou: vamos! já se ouve alguém a cantar na minha próxima canção,

me parece que sim

"A coisa que mais interessa hoje é não encerrar a poesia dentro da poesia"

(de uma entrevista a Gianni D'Elia,
feita por Vera Lúcia de Oliveira
e publicada na revista Insieme nº7)

***


"Eis a verdadeira questão: devemos entender que não se faz poesia com palavras, mas sim com as coisas, com as emoções, com as experiências - e que, sem tudo isso, não existe poesia.

Mas Mallarmé dizia precisamente o contrário: que a poesia é feita com palavras...

Mallarmé é, de fato, o fundador daquela poesia de palavras que depois foi imitada e retomada, em toda a sua forma de abstração e síntese extremas, no século XX. É uma grande poesia, porém é uma poesia que pode soar esvaziada e, não por acaso, o seu tema de fundo é o vazio. Ora, Mallarmé dizia que o mundo existe para virar livro. Eu discordo completamente. Para mim, é o livro que existe para virar mundo."

(copiado integralmente de uma antiga postagem e tradução em )

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

a primeira etapa




é com satisfação que essa central de reclames anuncia que os 12 exemplares do livro
Cantos de Estima composto por mim já se encontram com seus respectivxs,

a quem interessar possa, estão com e numerados:

o1 - Ilana Lichtenstein
02 - Cristina Regadas
03 - Manuel Santos Maia
04 - Carla Filipe
04a- Arturo Gamero
05 - Vera Egito
06 - Gui Mohallem
07 - Marcos Antonio de Moraes
08 - Andrea Aly
09 - Eva Uviedo
09a- Flavio Tris
10 - Marcos Visnadi
11 - Alfredo Pimenta
12 - Clarisse Valadares.


pode-se ver um pouco de quem são

mais informações sobre datas e continuidades, no decorrer,
lembrando que o mundo está aí é pra acontecer,

gracias

[clap clap clap
a esquerda e a direita
e a frente Astúcia, minha prima,
sorri atrás pra tia Inércia]

os nomes do nome




o pássaro em questão (venellus chilensis)
em Portugal é conhecido como abibe-do-sul.
vive em toda a américa latina.
não sei como pra lás das cordilheiras
mas no Brasil é o: Quero-quero.

s-o-l-e-t-r-a

nada assusta mais sua vizinha que o:

FIM DO ILUMINISMO
(ciclo de conferências)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

sing me to sleep

e se um poema não
adquire a independência necessária
(das pessoas estou cansada da independência necessária)

?

amarra meu cabelo ao corpo deste bebê, dá-lhe um dedo meu pra que chupe, se quiser o poema me come a carne. enquanto, em verdade, não. o problema é o poema da caixa toráxica. meu poema que não te atravessa. o problema é de quem? 'não deixa que ele vá sem mim', às vezes é como se eu pedisse por isso, sei. balança esse berço incontornável. com jeito meu pescoço te embala também. não amarra o gesto não.

e no corpo deste poema alguém? natimorto.
há crianças que nascem mortas e enormes, o mundo é assim, que vou eu fazer?,

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

25 anos

*

(os diálogos)

Mandaram-me fazer um electro-encefalograma para ver como ia o meu ritmo alfa. Eles tinham desconfianças, falavam de estados crepusculares. Divertido. Não havia estados crepusculares, o ritmo alfa estava óptimo. E cumprimentavam-me muito. "A sua cabeça é sólida." Bem, eu tinha uma cabeça sólida. Era uma coisa alegre. Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista. Nessa altura ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse. Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres. Eu saía do consultório fervendo de inspiração. Escrevi enormes poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los. Foi um bom tempo. Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa. Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte. Estudei os melhores venenos em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção. Gosto da palavra suicídio. A freqüência dos is como golpes, as duas sibilantes e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me. Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais. Como alegria, imaginei alguma coisa: Uma cidade marítima com torres brancas, espancada pela luz, e navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes. Havia uma árvore sumptuosamente inocente no meio da cidade. Na primavera cobria-se de espinhos e dava flores monstruosas cor de púrpura. As mães não deixavam as crianças brincar perto da árvore. Durante dias e dias a luz espancava a cidade. Nada havia a fazer com as minhas metamorfoses interiores. Vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares. Os bêbados formam uma maçonaria. Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas. Um deles disse-me que eu tinha um espírito religioso. Gostei, ficámos amigos, passámos a beber juntos falando do espírito religioso. "Também sou um espírito essencialmente religioso", disse-me ele uma noite, quando já nos movíamos como batráquios num pântano de cerveja. E eu confessei que minha juventude fora uma viagem violenta e fulminante através de medos e alegrias brutais. "Estive no meio do escuro, não podia dormir. Ou tremia apenas do júbilo de ter um corpo, uma voz, de viver entre luz e chuva e grandes nuvens sobre os campos." O costume. Comecei a estar farto. Enfim, uma pessoa não se embebeda somente para as miúdas perversões da memória, para a obliquidade de invenções avulsas, a trivialidade dos equívocos da emoção. Chateia-me ser um pequeno monstro sensível. "Merda", disse eu, "tenho uma cabeça sólida. Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia." "Bebe", respondeu o amigo. "Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde ninguém me mexa nem eu me possa mexer muito, estou cansado de me mexer." Depois apareceram as pessoas que ajudam, que têm planos para a nossa glória. Comecei a ter medo. Então fiz a mala. "Merda, merda, merda", sibilava baixinho.Esta é realmente a minha embaraçosa chegada a maturidade. Não serve para espetáculo, nem dá nada como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira.


Herberto Helder, Photomaton & Vox

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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

marinheiro só



8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8 8

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

the man i love




clarisse me deu

sábado, 20 de dezembro de 2008

e. e. cummings

[xi]

"let's start a magazine

to hell with literature
we want something redblooded

lousy with pure
reeking with stark
and fearlessly obscene

but really clean
get what I mean
let's not spoil it
let's make it serious

something authentic and delirious
you know something genuine like a mark
in a toilet

graced with guts and gutted
with grace"

squeeze your nuts and open your face

- - -

[xi]

"fundemos uma revista

que se lixe a literatura
queremos uma coisa com sangue na guelra

piolhosa com pura
fedendo com absoluta
e destemidamente obscena

mas deveras limpa
estão a ver
não estraguemos a coisa
façamos a coisa a sério

qualquer coisa de autêntico e delirante
percebem qualquer coisa de genuíno como uma marca
numa retrete

agraciada com gana e esganada
com graça"

apertem os tomates e abram a cara



tradução de Jorge Fazenda Lourenço, publicada pela Assírio & Alvim,

a tiros de vamos pra vida

ii.

você acha que pegou na nuca e ela te devolve tigre na unha. se o amor é um lance de estratégias poéticas, você, que nasceu artilheiro na vida, justinho na hora de enfrentar, aceita o chute na canela do contra-pé. onde é que eu caio? rasuras não, poesia do controle, do auto-controle que se lança. e a sugestão da cura nos olhando por entre a cortina da sala. quem comeu ana cristina? foi cacaso, foi armando, foi o vento? quem voou pela janela, anjo fatigado, foi a poeta? ou foi a própria janela quem se lançou sobre ela? e lá embaixo, mira, poesia das migalhinhas, a carne ainda cheira a pele fresca. mosaico do esquecimento que se lembra, que a gente, frangote, não é flauta muda, é pra quem está aí que a sereia canta:

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

o insípido e o sabor

pois, mas

arte tem que ter um pouco do que nisso falta, né,
de ser um absurdo que dá certo,

(o risco, o riso, a razão)

lá embaixo vou te mostrar um trecho que me fez lembrar dessa história da bienal, que eu concordo com você em milhão. esses curadores (precisariamos de uma terceira palavra para nomeá-los sem demérito de outros) comerciais são produtores financeiros que estão a não viver a arte. mas concordo só se não for pra pensar também e imediatamente: "são uns asnos", o que sem dúvida me parecem, porque se cortam afeto e inteligência da apreciação de um resultado final artístico, pô, pra que fazer? e você acha mesmo que é só uma questão de vaidade e dinheiro desses caras? será que não os desculpamos demais? concordo que há sempre alguma coisa boa aqui ou lá nessas exposições e tudo o mais. mas se contentar antes de ter comido não parece uma violência com o próprio estômago? falo assim, com força, mas sei que você não estaria nunca sendo condescendente com eles. porque não podemos ser. por que não podemos ser?

atualmente (desde ontem conversando com o breno) me parece que se alguém, um artista com intenção, faz alguma coisa com atenção devida e que não passe perto dos discursos/formas da publicidade, da propaganda, a chance de ser bom, fica grande. não digo que se pintassem uma lata de campbell's de novo não seria bom. digo do discurso subliminar que a publicidade usa, seja em formas confortáveis ou imperativas. isso (em arte) me parece sujo. se foi feito dentro de uma concentração que se animou a ser outra coisa e está fora de querer te vender ou comprar, a gente vê com os olhos bons, quer entender. a gente está querendo estar vivo, não está? mas ao mesmo tempo, estamos tão entretecidos (entristecidos ou entretidos também) uns nos outros (toda a falta de tempo e espaço prum, por exemplo, silêncio) que é: 1. muito difícil marcar uma diferença no fazer; 2. é muito necessário marcar separações entre as coisas. afinal, me parece que também a falta de limitação (que é um puta dum limite) exige que sejamos menos condescendentes. acho que precisamos voltar ao risco como um critério que não está dado a priori, risco que não está amalgamado em toda espécie de fazer e que deveria estar em tudo que é arte.

ok, mas daí talvez eu esteja de novo a voltar e a voltar e avançar para a questão do "novo". mas oras, estamos no início do século XXI (algo me constrange ao escrever em que século estamos), poderíamos pensar de modo diferente?


agora me lembrei de que o trecho que ia citar é o final de um texto do Leo Steinberg:

"A arte moderna sempre se projeta numa zona de penumbra onde nenhum valor está fixado. Ela nasce sempre na ansiedade, pelo menos desde Cézanne. Picasso disse certa vez que o que mais nos importa em Cézanne, mais do que suas pinturas, é sua ansiedade. Parece-me uma função da arte moderna transmitir essa ansiedade ao espectador, de modo que seu embate com a obra seja -pelo menos enquanto ela é nova- um problema existencial genuíno. Como o Deus de Kierkegaard, a obra nos molesta com sua absurdidade agressiva, assim como Jasper Johns quando se apresentou a mim vários anos atrás. Ela requer uma decisão na qual descobrimos algo de nossa própria qualidade; e essa decisão é sempre um "salto da fé", para usar o termo famoso de Kierkegaard. Como o Deus de Kierkegaard, que pede um sacrifício a Abraão, violando todos os padrões morais, o quadro parece arbitrário, cruel, irracional, exigindo nossa fé, ao mesmo tempo que não faz nenhuma promessa de recompensa futura. Em outras palavras, é da natureza da arte contemporânea original apresentar-se como um risco de graves conseqüências. E nós, o público, incluindo os artistas, deveríamos ter orgulho de viver esse problema, porque nada mais nos pareceria muito fiel à realidade; e a arte, afinal, supõe-se que seja um espelho da vida.

Eu estava lendo o Êxodo, capítulo l6, que descreve a queda do maná no deserto, e considerei que o trecho vinha a calhar:

Quando se evaporou a camada de orvalho que caíra, apareceu na superfície do deserto uma coisa miúda, granulosa, fina como a geada sobre a terra. Tendo visto isso, os israelitas disseram entre si: 'Que é isso?'. Pois não sabiam o que era. Disse-lhe Moisés: 'Isso éopão que Iahweh vos deu para vosso alimento. [...] Cada um colha dele quanto baste para comer, um gomor por pessoa [...]'

E os israelitas assim o fizeram; e apanharam, uns mais, outros menos. Quando mediram um gomor, nem aquele que tinha juntado mais tinha maior quantidade, nem aquele que tinha colhido menos encontrou menos: cada um tinha recolhido o quanto podia comer.

Moisés disse-lhes: 'Ninguém guarde para a manhã seguinte'. Mas eles não deram ouvidos a Moisés, e alguns guardaram para o dia seguinte; porém deu vermes e cheirava mal. [...]


A casa de Israel deu-lhe o nome de mantá. Era [...] [de] sabor como bolo de mel.
Disse Moisés: 'Eis o que Iahweh ordenou: Dele enchereis um gomor e o guardareis para as vossas gerações, para que vejam opão com que vos alimentei no deserto. [...] Arão o colocou diante do Testemunhopara ser conservado.

Depois de ler essa passagem, parei e pensei como o maná era parecido com a arte contemporânea; não apenas por ser um enviado de Deus [Iahweh], ou por ser um alimento do deserto, ou por ninguém conseguir compreendê-lo bem - pois 'não sabiam o que era'. Nem mesmo porque uma parte dele foi imediatamente posta num museu - e o guardareis para as vossas gerações"; tampouco porque o seu gosto permaneceu um mistério, uma vez que a frase aqui traduzida como 'sabor como bolo de mel', é na realidade uma suposição; essa palavra hebraica não ocorre em nenhum outro lugar na literatura antiga e ninguém sabe o que ela realmente significa. Daí a lenda de que o maná tinha o sabor que cada um desejava; embora viesse de fora, seu sabor na boca era invenção de quem o provasse.

Mas o que decidiu a analogia com a arte moderna, para mim, foi esta Ordem: colher do maná todos os dias, de acordo com o que for comer, e não para conservá-lo como uma garantia ou investimento para o futuro, fazendo da colheita de cada dia um ato de fé."

["A arte contemporânea e a situação de seu publico", trad. Célia Euvaldo, NY, primavera de 1960.]

- -
o novo fica novo até que fique velho.

- -

um beijo,


ps. a questão de ter um "projeto estético/ existencial/ crítico" ou não, fica pra depois ou fica para sempre.
ps. do ps. ganhei o dia! tão cedo e até já citei a Bíblia!
ps. do ps. do ps. meu cunhado francês ao ler no jornal a palavra "curador" pensou que viesse de "curandeiro"!

atracadouro, cochabamba, desfiladeiro

eu descobri a consolação

me lembrei enquanto subia a augusta a pé e a bexiga estourando até a livraira e pensando em escrever sobre a avenida europa, sobre a sobreposição de realidades que é a avenida europa, sobre - - agora apareceu - - como não consigo eliminar de ver nessa frase a duplicidade da minha experiência atual ( falar de uma avenida europa concreta: a da cidade de são paulo que depois de cruzar a brasil vira augusta, e a avenida europa que atravessei até budapeste) - - e pensei por quê? vapor barato é

vou descendo
por todas as ruas
e vou tomar
aquele velho navio

se eu estava subindo a augusta? e depois lembrei de um texto do caio f. sobre o cinesesc e a augusta e pensei, meu deus, preciso mesmo escrever é sobre a europa, e daí de novo, qual europa? - - são paulo - - por que desce, wally? é o corpo que se larga gingando é no ato de descer? pois, me lembro, hippie é aquele das ancas soltas. me disseram isso monstrando as coxas e sobre-coxas de um cavalo descendo uma escadaria. era um cavalo de polícia. daí já junto tudo aos anos 70, ditadura, flower power, wally de branco na janela, e pronto, tá lá o wally emoldurado, poetão, cavalo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

escrever nasce muito
do isolamento de um sentido
a voz é um sentido
como o tato e o olfato e o pensamento
como se o silêncio das coisas
detalhasse uma só presença
duzentos silêncios
por centro de respiração

e
por mais palavra que eu diga
nunca esse palmo de árvore
nunca essa barriga de céu aberto

domingo, 14 de dezembro de 2008

Arte poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo, ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocaram-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não se escrito, para não se entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, só sei escrever o seu sentido


José Luís Peixoto, em A criança em ruínas.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

ter é tardar

Tudo começou quando, perto do pedágio, em resposta ao meu dizer "mas se você deixa pra depois, é porque confia na memória" e o Arturo me disse confiar é na transformação. E uns dias depois, o Marcos, na universidade, me reiterou na necessidade da unidade.

Dentro da transformação, encontrar uma unidade. Não promovê-la, nunca. Achá-la como um espectador encontra pontos de encontro entre o que ele carrega e o que lhe é apresentado. Uma unidade inegável.

Digo isso: hoje notei que às vezes escrevo um texto que me parece totalmente fora do encontro com um outro, sei lá, escrito ontem. Olho os dois e penso: não é possível, estou perdendo algo entre eles, algo que não vi passar, algo que continua sendo sentido e onde não posso tocar. Nunca saberei. Começo a me comentar: preciso voltar a lançar continuidades como fios e tênues mesmo, para adiante e para trás. Organizar o Álvaro de Campos para o definitivo. Fico aflita atrás disso. Mas quando esqueço ou me acalmo de tanto correr encontro que o texto de hoje, tem sim uma unidade, com um texto, sei lá, de três anos atrás. Vejo que estava escrevendo o mesmo texto a cada dia em silêncio. Preciso ter calma, desacreditar na exaustão. Mas o tempo me entorpece como um pirata bêbado que amanhece afogado.

Ou, por exemplo: desde que voltei estou tentando terminar um conto que comecei antes de viajar. Está bem pela metade. É uma história simples, de amor. Eu já tenho toda a estrutura dela mentalmente traçada e tenho até a cor verde de certas cenas noturnas, mas não consigo concatenar uma imagem na outra em texto. Daí estou na rua e vejo uma mulher cortando cebolas. Penso assim: "vou colocar uma mulher parecida com a Clarice L. a cortar uma cebola no pavilhão do hotel antes dela sair pra jantar com a Flora". Sento-me em frente ao texto e não consigo. Não consigo. Nem três linhas. Três dias depois, sofrida, enfim me liberto e coloco aquela imagem em outro texto: o do cachorro: por exemplo:

desconfio que é ele quem rói
cebolas pela casa gota a gota
e de manhã a camareira do seu
hotel limpo com o pano gasto


por um tempo, isso assim me satisfaz.

- - -

Acho maravilhoso, embora, esse problema de fazer crítica e literatura ao mesmo tempo é o lance elástico de achar fácil de cada lado da rua estratégias de ação. Uma coisa diz a outra, são reflexos de outras, e logo ficam encarceradas, acimentadas, gradeadas não!, arrebento. Quem bem me conhece sabe que tenho a fase do descrer, a desflor.

Afinal, se ler o tempo todo, interpretar-se e agir ou escrever daquele jeito que esperam é procurar dar estações de rádio que alguém sintoniza e pá: música de elevador.

Estou pelo acidental? Se alguém visse como sempre escrevo em linha reta acreditaria na minha necessidade de derrubar estantes. Estou que só os ossos comunicam.

Adeus.

- - -


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Paulo Henriques Britto

I

Existe um rumo que as palavras tomam
como se mão alguma as desenhasse
na branca expectativa do papel

porém seguissem pura e simplesmente
a música das coisas e dos nomes
o canto irrecusável do real.

E nessa trajetória inesperada
a carne faz-se verbo em cada esquina
resolve-se completa em tinta e sílaba
em súbitas lufadas de sentido.

Você de longe assiste ao espetáculo.
Não reconhece os fogos de artifício,
as notas que ainda engasgam seus ouvidos.
Porém você relê. E diz: é isso.

esboço para um poema

sou para mim mesma como um cachorro. às vezes o chamo de filho e rolo a bolinha vermelha. nem sempre ele vai atrás. - - essa palpitação de saber que é isso que quero - - passo semanas distante, embora presente na mesma sala - - é um ditado mútuo; não sei quem dita antes a boca ou a mão: há discrepâncias avassaladoras, como entre a duração de "," , de falar "vírgula" e de escrever "vírgula" enquanto falo "vírgula". tudo tem que ser dito - - é um cão dócil, nunca me morde, embora no escuro tenha me rangido os dentes.

mas no cachorro ainda há uma imagem: da violência da pata batendo na porta. e as noites de estrondos de festa. quando soltam artifícios o cão tapa as orelhas de basset. e embora às vezes finja a loucura dos mendigos, nunca dorme a céu aberto e não sabe adivinhar a chuva, o cão - -

o cão.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

tô procurando algo isso




matisse

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

roubado

Quente que se enche de manteiga! Mas, a menina aqui lambuza os dedos na realidade e se põe a sofrer. Como a pequena da Tabacaria com as metafísicas dos chocolates, mas minhas dores são os cristais da realidade. Realidades que espetam. Ontem o dedal enquanto os últimos exemplares tecia estorou e a agulha enorme pra dentro do meu indicador. Quase desmaiei! Está roxo e inchado e o dedo não pode participar dessa nossa correspondência por hoje. Mas é pra você ver como eu dou o sangue pelas coisas!

listen to the traffic jam



o som e a risada

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Herberto Helder

III

Todas as coisas são mesa para os pensamentos
onde faço minha vida de paz
num peso íntimo de alegria como um existir de mão
fechada puramente sobre o ombro.
- Junto a coisas magnânimas de água
e espíritos,
a casa e achas de manso consumindo-se,
ervas e barcos altos - meus pensamentos criam-se
com um outrora lento, um sabor
de terra velha e pão diurno.

E em cada minuto a criatura
feliz do amor, a nua criatura
da minha história de desejo,
inteiramente se abre em mim como um tempo,
uma pedra simples,
ou um nascer de bichos num lugar de maio.

Ela explica tudo, e o vir para mim -
como se levantam paredes brancas
ou se dão festas nos dedos espantados das crianças
-é a vida ser redonda
com seus ritmos sobressaltados e antigos.

Tudo é trigo que se coma e ela
é o trigo das coisas,
o último sentido do que acontece pelos dias adentro.

Espero cada momento seu
como se espera o rebentar das amoras
e a suave loucura das uvas sobre o mundo.
-E o resto é uma altura oculta,
um leite e uma vontade de cantar.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

ch-ch-changes

quando tudo se consolida e de um lado alguém acredita: cheguei, ela é minha, estou. de outro já se anunciava rompendo: noite dia dia noite, um coração. não creia na exatidão do que te dizem. as palavras não residem. acreditar no contrário é coisa de soberano. soberano é o abismo.

a palavra é um lugar vazio
o mundo não faz sentido
da fogueira de são joão
aos dilúvios ao amor

quem procura exatidão acaba encontrando ruínas, nunca duração.
vai-e-vem mecânico ao qual digo: não.
a palavra, no entanto, tem maior aderência que muita coisa
sorriso inseto inseguro.

para escrever, um ano ou três atrás escrevi:
é preciso mais do que perder a si mesma (para ganhar-se no fim):
é preciso perder a própria escrita.
 

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